domingo, 15 de agosto de 2010

Mary & Max


Uma senhora algumas fileiras atrás de mim, falando ao celular antes do começo da sessão, informou para a pessoa do outro da linha, que estava no cinema para ver um filme de criança.
Mary & Max, não é um filme de criança. É um desfile de fracassados. Adam Elliot, o diretor, não está nem aí para 0 3d, personagens bonitinhos, cenas coloridas. O filme é soturno. Há pouco cor, quase nenhuma.
Mary é uma menina australiana de 8 anos sofrendo de bullying e sem amigos que um dia resolve ao acaso escrever uma carta para alguém em Nova York, para saber entre outras coisas, como nascem os bebês americanos.
Max Horowitz é um judeu obeso mórbido de 44 anos com síndrome de Asperger, solitário e sem amigos que recebe a carta ao acaso de Mary. Duas pessoas diferentes do vai-da-valsa das historinhas da animação por aí.
Sim, Mary & Max, é uma animação. Criada em stop-motion, onde os personagens são criados em massinhas. E eles não são bonitinhos aqui. As fraquezas humanas explodem na tela. É um drama adulto. E servimos de voyeur para a troca de cartas entre os dois personagens, tão diferentes e tão iguais.
É uma história de amizade e sobre sonhos. É triste e é bonito. No meio do filme algumas de minhas lágrimas devem ter brilhado mais no escuro da sala. Teca, aquela me atura, ficou me monitorando com o olhar. Acho que a fungada mais forte foi da mulher algumas fileiras atrás de mim, aquela que queria um filme de criança. As pessoas saem pesadas da sessão, em silêncio. Nada daqueles comentários, e aí o que você achou ? gostou ?. Nada disso. Só espera-se que a Rua da Consolação esteja do outro lado do corredor na saída da sala e respirar aliviados, e talvez chorarmos, talvez gritar, incapacidades de Mary & Max, que apesar de tristes, nos encantaram e com quem em muitos momentos nos identificamos. Mary & Max, não é fácil de digerir mas é ótimo.
Detalhe a dublagem de Max foi feita pelo ator Phlip Seymour Hoffman e a Mary adulta pela atriz Tony Collette. Classe.



" A razão pra eu te perdoar é porque você não é perfeita. Você é imperfeita e eu também. Todos os humanos são imperfeitos, até mesmo o homem do lado de fora do meu apartamento que joga lixo no chão. Quando eu era jovem eu queria ser qualquer pessoa, menos eu. O Dr. Bernard Hazelhof disse que se eu estivesse numa ilha deserta então eu teria que me acostumar com a minha própria companhia, ele disse que eu teria que aceitar a mim mesmo, meus defeitos e tudo o mais e que nós não escolhemos nossos defeitos, eles são parte de nós e nós temos que viver com eles. Mas nós podemos escolher os nossos amigos e eu fico feliz por ter escolhido você. O Dr. Hazelhof também diz que a vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas. Outras, como a minha, têm fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro. Sua calçada é como a minha, mas provavelmente sem tantas fendas. Com esperança, um dia nossas calçadas vão se encontrar, é nós poderemos dividir uma lata de leite condensado. Você é minha melhor amiga. Você é minha única amiga.

Seu amigo de correspondência americano,

Max Jerry Horowitz."

Transcrição de parte da última carta, lida no filme Mary e Max.


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